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terça-feira, 28 de maio de 2024

Minimizando conflitos ao atender varejo e atacado


 

Imagine uma cidade fictícia de 150.000 habitantes, que tenha 80 lojas de materiais de construção. Podemos dizer que ela tem umas 15 lojas grandes e 65 lojinhas de bairro.

Nessa nossa ficção, eu sou o gerente comercial de uma indústria de componentes elétricos – disjuntores, caixas, eletrodutos etc.

Meu representante comercial que atende a região consegue fazer negócios com as 15 maiores lojas da cidade, lojas que tem capital de giro para comprar o meu pedido mínimo: R$ 1.200,00 de itens do mix de componentes elétricos. O prazo de entrega gira em torno de 15 dias corridos.

Já as lojinhas de bairro costumam comprar dos atacadistas, que têm entrega imediata, um mix muito maior de produtos e pedido mínimo de R$ 800,00. A desvantagem é o preço mais caro do atacadista, comparado com o preço da indústria.

Do ponto de vista do consumidor, todos têm o seu espaço. Tem dias que você atravessa a rua de bermuda e chinelo para comprar algum material na lojinha do bairro, e tem dias que você pega o carro e vai resolver uma compra maior nas grandes lojas.

Na lojinha do bairro você tem conveniência. Nas grandes lojas você tem preço e variedade maior de produtos.

Se eu, fabricante, quero estar em todas as lojas com meus produtos, eu preciso desenvolver um atacadista ou distribuidor que atenda a região.

 

Resista ao Canto da Sereia...

Atacadistas vão te seduzir com a promessa de comprar grandes volumes e vão te pressionar por preços mais baixos. Se você der tudo que eles querem, três coisas podem acontecer:

  1. Eles podem ficar com margem para entrar nos clientes que você atende diretamente pela fábrica.
  1. Eles podem atender as lojinhas com um preço que permita aplicar o markup e chegar no preço ao consumidor das grandes lojas.
  1. Você pode estar sacrificando sua margem num nível inaceitável.

Então resista ao Canto da Sereia, respire fundo e defina uma estratégia antes de entrar nesse jogo.

 

Mix de Produtos

Quanto mais abrangente o seu mix, mais fácil entrar no varejo. Por outro lado, quanto menor o mix, mais você fica restrito ao atacado.

Lembra do exemplo do pedido mínimo de R$ 1.200,00? Quem pode comprar esse valor só de eletrodutos? Se eletroduto é o seu único produto, provavelmente você vai ter mais facilidade de entrar no atacado. O atacadista vai juntar seu produto com produtos de diversos outros fabricantes para oferecer um mix abrangente aos seus clientes.

Mas se você tem todo um mix de componentes elétricos, você está mais apto a atender diretamente o varejo.

Existe outra diferença fundamental aqui: Se o varejo pode comprar todo o seu mix, o atacado tende a comprar a sua “Curva A”, seus produtos mais populares, de maior giro.

Lembre-se: Como regra geral, o mix oferecido ao atacado deve ser o mix que terá bom giro no pequeno varejo.


Precificando para varejo e atacado

Vou dar um exemplo numérico aqui. É só um exemplo, que pode ser próximo ou distante da realidade da sua empresa. O importante aqui é entender o raciocínio e adaptar ao seu caso.

Vamos ao exemplo...

Eu tenho um Produto A, que será direcionado ao varejo. Depois de aplicar todos os custos e a margem que eu quero, cheguei no preço mínimo de R$ 100,00 por unidade.

A partir desse preço eu vou “empilhando” descontos, utilizando a fórmula abaixo:

Então... Se eu tenho um preço base de R$ 100,00 e quero ter um preço para aplicar um desconto de 5% e chegar de volta aos R$ 100,00:


Verificação: R$ 105,26 – 5% = R$ 100,00


Seguindo esta lógica, vamos calcular os preços relativos às regras de negócio abaixo:

·       Preço de Tabela (referência)

·       10% de desconto para pedidos até R$ 2.400,00

·       10% + 5% de desconto para pedidos até R$ 4.800,00

·       10% + 5% + 5% de desconto para pedidos acima de R$ 4.800,00

·       5% de desconto adicional “na manga” do supervisor (informação restrita)

O resultado ficaria assim, calculando os preços da esquerda para a direita (usando a fórmula); e interpretando a tabela da direita para a esquerda:




Repare que o maior desconto possível é o meu preço com margem mínima, e o preço de tabela é apenas uma obra de ficção, ou mais precisamente uma “ancoragem” que estabelece uma referência de preço superior, dando aos clientes uma percepção de ganho na negociação.

E eu também tenho um Produto B, popular, campeão de vendas, que será direcionado para varejo e atacado. Este produto, considerando custos e margem desejada, tem um preço mínimo de R$ 60,00 por unidade.

Para o atacado demos um desconto adicional de 10% para pedidos acima de R$ 15.000,00. Com isso temos o cálculo de preços abaixo:



Repare que, para acomodar o preço de atacado, eu preciso encarecer um pouco a tabela de referência. Papel e planilha aceitam tudo... Mas na prática a gente precisa ver se isso é possível, ou seja, preciso avaliar se os preços de varejo continuam competitivos.

Dar 10% de desconto adicional para o atacado não permite, em tese, que o produto chegue no pequeno varejo com preço abaixo do preço praticado para as lojas atendidas pela fábrica.

 

Elabore uma política comercial!

Toda essa problemática de atender varejo e atacado numa mesma região reforça a importância da empresa ter uma Política Comercial bem definida.

Você pode começar reunindo as informações que você já tem – uma tabela de preços, regras de desconto, prazos de pagamento praticados, um procedimento de atendimento de assistência técnica, as métricas que você usa para avaliar clientes, vendedores etc.

Se você conseguir juntar isso tudo e formatar um Manual do Vendedor ou Manual do Representante; já temos um bom começo. Mas siga com determinação até ter, efetivamente, uma Política Comercial estabelecendo seus objetivos, mercados alvo, canais de atendimento, sistemática de precificação, posicionamento perante a concorrência, segmentações de produtos, clientes etc.

E se precisar de apoio nessa empreitada, peça ajuda. Esse é o meu trabalho.

sábado, 29 de julho de 2023

A maior armadilha da precificação, e como escapar aplicando o custeio variável


Precificação é um assunto absolutamente crítico!

Erros em precificação podem tornar empresas menos competitivas se a gente errar para mais; ou até quebrar empresas se a gente errar para menos.

Num mercado de baixa concorrência, precificar é, essencialmente, aplicar nos custos a margem que a gente quer. Mas no ambiente de negócios atual isso é exceção, não regra.

A maioria das empresas está inserida num contexto de concorrência acirrada, e por isso a precificação dos seus produtos e serviços deve ser feita com cuidado.

Esse é um artigo mais extenso, para você que não desiste na segunda ou terceira página. Vamos em frente, pois tem conteúdo valioso aqui.

 

Formas básicas de precificação

Numa visão simplificada, existem três formas de precificação:

1.   Markup, ou seja, a aplicação de um índice multiplicando o custo. Por exemplo, uma loja aplica um markup de 1,8 no preço de custo, para formar seu preço de venda. Se adquire um produto por R$ 100,00, vai vender este produto por R$ 100,00 x 1,8 = R$ 180,00.

2.  Margem. Aqui a referência é o preço de venda. No exemplo acima a margem é R$ 180,00 – R$ 100,00 = R$ 80,00. Se dividirmos esta margem pelo preço de venda temos.

Repare que, no mesmo exemplo, um markup de 1,8x, ou seja, de 80%, equivale a uma margem de 44,44%.

Resumindo esse cálculo todo:

            Custo: R$ 100,00

            Preço: R$ 180,00

            Margem: R$ 80,00

            Markup: 1,8x ou 80,00%

            Margem %: 44,44%

3.    Pesquisa de Preços, quando a gente busca informações no mercado para definir ou ajustar nosso preço de forma a ter competitividade.

Daqui a pouco a gente vai entender que a pesquisa de preços sempre vai andar junto com as outras formas de precificar produtos.

A boa precificação deve balancear o rigor do cálculo matemático com a inteligência de mercado.



 

Cálculo de preços a partir dos custos e da margem desejada

Assumindo que o markup é uma conta bem simples – preço x índice – vamos detalhar melhor com o calcular preço a partir dos custos e da margem que queremos.

Vamos por partes, para fixar bem esse conceito.

 

Exemplo 1: Eu quero receber R$ 100,00 na venda de um produto, e preciso saber como precificar esse produto para pagamento no cartão de crédito, com taxa de 3,9% sobre a venda.

O erro grosseiro é aplicar a taxa de 3,9% no preço, vendendo o produto a R$ 103,90. Fazendo isso, ao descontar 3,9% de R$ 103,90, teremos um preço líquido de R$ 99,85, e não os R$ 100,00 que desejamos.

Como calcular corretamente?

 



Verificação:

Preço=R$ 104,06

Taxa cartão = R$ 104,06 x 3,9%=R$ 4,06

Preço líquido = R$ 104,06 – R$ 4,06 = R$ 100,00 (como desejado)

 

Exemplo 2: No mesmo exemplo acima, agora acrescentamos um frete de 5% e uma comissão de 3%, calculados sobre o preço de venda.

Como vai ficar a fórmula?

Verificação:

Preço=R$ 113,51

Taxa cartão = R$ 113,51 x 3,9%=R$ 4,43

Frete = R$ 113,51 x 3% = R$ 3,40

Comissão = R$ 113,51 x 5% = R$ 5,68

Preço líquido = R$ 113,51 – R$ 4,43 – R$ 3,40 – R$ 5,68 = R$ 100,00 (como desejado)

Acho que já ficou clara a forma de calcular o preço de venda a partir dos custos percentuais que estão “por dentro” do preço.

Vamos agora começar a construir um exemplo mais realista.

 

Exemplo 3: Meu produto tem custo de aquisição (ou fabricação) de R$ 100,00. Sobre a venda temos impostos de 12%, frete de 3%, comissão de 5%, taxa do cartão de 3,9%. Minha empresa tem custos indiretos que correspondem a 30% da receita e eu desejo uma margem de 8% sobre as vendas.

Parece que ficou complicado, mas no fundo é o mesmo cálculo:



Ou seja, ao vender este produto por R$ 262,47, eu “pago” o custo do produto, todos os custos associados à venda, meus custos indiretos e ainda me sobra a margem desejada de 8% sobre as vendas.

Nota: Usei uma conta bem simplificada de impostos aqui para não entrar numa discussão que pode triplicar o tamanho desse artigo.

 



Qual o preço que me dá margem zero?

Por essa lógica, qual o menor preço que eu posso praticar? Para calcular é simples; basta zerar a margem na conta.

 

Matematicamente está tudo correto, mas nós já caímos na armadilha...

Você vai entender no próximo tópico.

 

Uma empresa com vários produtos

Vamos imaginar que o produto do nosso último exemplo seja o produto “A” de uma empresa, que tem alguns outros produtos.

Na planilha abaixo temos os cálculos de preço a partir do custo dos produtos, e também os volumes de vendas, receita total e margem total da empresa.




Na última linha, destacado em amarelo, está o preço mínimo calculado – o menor preço que vendas poderia praticar para o produto não ter margem negativa.

O total de despesas indiretas é R$ 291.338,58, valor que dividido pela receita total indica o percentual de 30% aplicado nos produtos.

Nesta configuração, conforme vemos na planilha, a empresa tem receita mensal de R$ 971.128,61 e margem total de R$ 77.690,29, ou seja, temos exatamente os 8% de margem desejados.

 

Este cálculo está correto se nós pudermos realmente praticar os preços calculados.

 

Enquanto isso, no mundo real...

No mundo real o preço do produto C ficou acima do que o mercado está disposto a pagar. Nosso produto está precificado inicialmente a R$ 131,23 e uma pesquisa indicou que seria possível vender esse produto a R$ 100,00.

Temos um problema, pois o preço mínimo calculado para este produto é R$ 108,46.

Vamos ver o que acontece na planilha.

 


Quando informamos o preço de R$ 100,00 para o produto C, tanto a receita quanto a margem total são reduzidas.

Vamos agora simular a retirada de linha do produto C, um produto aparentemente deficitário.

 


Comparando receita e resultado:


Ou seja, sob a ótica do cálculo de margem, a retirada de linha do produto C reduziu a receita, mas incrementou o resultado.

 

Bacana! Mas esta conclusão pode estar totalmente equivocada...


Despesas indiretas são...   Indiretas!

Embutido no custo do produto C tem 30% de despesas indiretas. Em outras palavras, para cada unidade do produto C vendida a R$ 100,00, tem uma despesa indireta de R$ 30,00 associada. Se eu deixei de vender 250 unidades de produtos, economizei R$ 7.500,00 das despesas indiretas da empresa...

Mas será que isso é verdade?

Quantas pessoas no TI, ou na contabilidade, ou no RH, eu vou reduzir ao comercializar 250 unidades de produto a menos num mês? Provavelmente não vou reduzir ninguém. Também não vou reduzir licenças de sistemas, honorários de consultoria, o pró-labore dos sócios etc.

Ao apropriar as despesas indiretas no cálculo do preço, de forma linear (mesmo percentual para todos os produtos), assumimos como verdade uma relação que pode não existir no mundo real.

 

Custeio Variável

Vamos refazer nossa planilha, agora sob a ótica da metodologia conhecida como Custeio Variável.

 


No custeio variável você parte do preço de venda e abate os custos diretos da venda (impostos, comissões etc.). Depois você abate o custo do produto e chega na Margem de Contribuição, que pode ser entendida como o valor que cada produto deixa na empresa para ajudar (contribuir) no pagamento das despesas indiretas.

No custeio variável, as despesas indiretas são consolidadas, não tendo relação direta com os produtos.

Dito isso, vamos ver o que acontece com o produto C na nossa planilha de custeio variável.

Primeiro, vamos colocar o produto C a R$ 100,00, como fizemos na planilha de margem.

 


Repare que a margem de contribuição do produto C caiu de 38,0% para 26,1%, mas se manteve positiva.

Agora vamos retirar o produto C de linha e ver o que acontece.

 


Comparando os dois cenários, fica óbvio que retirar o produto C de linha é uma decisão equivocada, pois reduz a receita e o resultado da empresa.

 


Conclusões




  • Você pode e deve calcular todos os preços dos produtos a partir do custo, com um rateio linear das despesas indiretas, e acrescentando a margem desejada. Isso vai te dar um ponto de partida, uma boa referência dos patamares de preços que pagam as suas contas e preservam a sua margem desejada.
  • Feito isso, transfira tudo para uma visão de custeio variável e faça os devidos ajustes em preços, baseado nas suas percepções e pesquisas de mercado. Faça também simulações de volume de vendas.
  • Produtos com margem de contribuição negativa precisam ser revistos. É possível reduzir custos? Se não, considere deixar de comercializar.
  • Se tiver que trabalhar com margens de contribuições menores em alguns produtos, encontre outros produtos com espaço para subir os preços. Esse é um jogo de compensações. São essas compensações que vão preservar a sua margem.

Se você chegou até aqui, parabéns! Estou terminando de escrever esse artigo num sábado à noite; realmente me esforcei para gerar conteúdo de qualidade e fico feliz de saber que você se debruçou nesses cálculos para aprender e para levar conhecimento e melhorias para a sua empresa.

Se precisar de um ajuda extra, entre em contato. Esse é o meu trabalho.